23 de Mai de 2009

Cidade sem muros nem ameias

Durante o mês de Abril e o início de Maio, houve pouco para escrever, saudar o 25 de Abril e o 1º de Maio seria reconhecer inúmeras razões para festejar e, infelizmente, começam a escassear. Viva a democracia e viva a liberdade! Mas aos poucos vão-nos tirando o que tanto e a tantas pessoas demorou séculos a conseguir.
Vivemos cada vez mais perdidos de nós. Não temos tempo para viver, que, para todos os efeitos, é o fim último de cada ser. Viver. E a cada passo estamos menos vivos, a nossa existência resume-se ao desempenho de uma função mecânica sem fim, apenas o repetir de cada dia, uma, outra e outra vez. Querem mais horas, damos mais horas, querem maior produtividade, o pessoal lá vai atrás deles. A carneirada anda por aí, toda contente a dizer que segurou o seu emprego? Parabéns, agora fazes o dobro pelo mesmo, estou tão orgulhoso de ti.
E abrimos a boca de espanto sabendo que este investidor perdeu 10 ou 20 milhões no último ano, sem pensarmos que o pobre coitado, nosso senhor o ajude, ainda tem mais 10 ou 20 para sobreviver com fome e sede numa qualquer casinha à beira mar. Mas ele trabalha tanto, coitado... Agora alguém vai ter de devolver o lucro e não basta recuperar o que se perdeu, é preciso aumentar. E lá perdem uns milhares o emprego, outros perdem direitos no emprego, já se fala em aumentar o horário de trabalho semanal. Ninguém se assusta, tem de ser, afinal somos todos uns preguiçosos que aqui andamos, não é? Somos todos uns molengas, olha, onde já se viu, quererem ter família e tempo para ela, onde já se viu quererem viver melhor... Não se vê em lado algum, realmente. Talvez um dia valorizemos outras coisas para além das materiais, talvez deixemos de lado a competição e passemos a acreditar que não é essa a natureza humana. Os mais cépticos tentam justificar tudo com um "não vale a pena que nada vai mudar". Claro que se esse dia alguma vez chegar, não será uma bolha a rebentar mas uma bomba atómica, porque nesse instante o mundo como o conhecemos entra em colapso. O sistema económico actual não tem um objectivo final ou uma utopia, não pretende um futuro melhor, porque esse futuro há-de ser sempre futuro, já alguma vez se ouviu alguém dizer que quer mudar o presente? Infelizmente estamos todos com a cenoura à frente dos olhos, porém, nem ela pára de se afastar, nem quem nos "monta" pára para nos ajudar a comê-la...

P.S. - Acabando com um tom menos radical-socialista, já alguém reparou que os cartazes de campanha de Paulo Rangel, esse ícone da política portuguesa, se parecem com postais de Natal? É as estrelinhas do lado direito e o fundo em dourado, verde ou vermelho com a frasezinha do lado e a assinatura. Fica giro, tipo "A todos um bom Natal que eu vou para a Europa, deste vosso amigo Paulo Rangel". Os meus parabéns ao designer, só falta mesmo o menino Jesus para enfeitar.

0 Apadrinhados: